Pílulas Azuis – Frederik Peeters

Frederik Peeters conta sua história ao lado da companheira, Cati, desde os primeiros encontros nas rodas de amigos até a revelação de ela e seu filho (um menino de quatro anos, de um relacionamento anterior) serem soropositivos.

Entram em cena todas as emoções contraditórias que o autor tem de aprender a gerenciar, como amor, piedade, raiva e compaixão, sem deixar de lançar algumas verdades duras e surpreendentes sobre o assunto do HIV, seus preconceitos e o tratamento.

Uma amiga recentemente começou a trabalhar no Grupo Autêntica e me apresentou as maravilhas que são os quadrinhos do selo Nemo. Logo de cara me apaixonei por Placas Tectônicas (Margaux Motin), estou me preparando psicologicamente para falar dele aqui. E agora terminei Pílulas Azuis e Frederik me surpreendeu muito com a forma que aborda o assunto tratado.

Semana passada assisti o filme Straight Outta Compton – A História do N.W.A.(SEN-SA-CIO-NAL) onde se tem um contraste de como a mesma doença pode ser abordada de diferentes formas. No filme Eazy E, rapper americano,nascido e criado na periferia de em Compton, Califórnia. “Eazy-E mantinha relações sexuais com inúmeras mulheres e nesta época, o vírus da AIDS começava a disseminar-se nos Estados Unidos. Teve sete filhos com seis mulheres diferentes.” Quando descobriu que tinha contraído o vírus já estava em um estágio avançado e faleceu meses depois.

E por que estou falando tanto do filme ao invés de ir direto para a resenha? Para mostrar o que a maioria das pessoas pensam de quem tem HIV. Eazy-E é um exemplo do que a sociedade generaliza quando pensa em alguém com soropositivo: ou é gay ou vive na promiscuidade, contrai o vírus e está fadado a morrer em poucos meses. FIM

Frederik Peteers contou sua história com Cati nessa Graphic Novel para tentar disseminar esse pré-conceito criado e principalmente passar informações que muitas vezes quem não passa por isso nem se importa em ir atrás (e eu me incluo inteiramente nessa categoria).

Pílulas Azuis é tão real e contado de uma forma tão sensível, que nos faz entrar em seu cotidiano, desde o momento em que Fred conhece Cati, as conversas em festas de amigos, á revelação, a dúvida de contar aos pais, a privação da entrega do ato sexual na sua totalidade, os diálogos com amigos, os medos, angústias, médicos e uma das minhas parte favoritas, a evolução de Fred com o pequeno enteado de 4 anos, mostrando além da doença um relacionamento gradual e crescente.

É um livro extraordinário que não sendo totalmente didático (com exceção da cena com o Doutor que é o máximo), mas nos ensina muito não só sobre a doença em si mas acima de tudo, sobre quem sofre com ela.

No fim temos ainda um extra mostrando 13 anos após os acontecimentos como a família está hoje, é de longe o melhor do livro!

Uma história de amor que não vemos as provas em beijos ou juras, mas nos imensos olhos de Cati e na determinação de Frederik, sem contar nesta obra de arte criada.

Abriu minha mente e eu recomendo muito!

Observações: Em 2001, ano do seu lançamento original, a obra ganhou o prêmio Rodolphe Töpffer, em Genebra, Suíça. No ano seguinte, recebeu o Polish Jury Prize (prêmio do júri polonês) no Festival de Angoulême, na França.

Quadrinhos|| 208 Páginas || Nemo || Classificação: 4/5